Os novatos de óleo e gás

Com inúmeras possibilidades de negócios surgindo no setor de óleo e gás no Brasil, empresas nacionais que tradicionalmente atuavam como fornecedores de outros segmentos industriais – ou tinham participação discreta na área – estão se preparando para conquistar uma fatia dos investimentos da Petrobras. Entre os destaques estão companhias dos setores automotivo, metalomecânico, automação e controle, eletromecânico e até aviação.

Os exemplos vêm de norte a sul do país. No Rio Grande do Sul, que detém participação discreta no fornecimento para o setor, diversas empresas estão lançando novas linhas de produtos focadas em óleo e gás. Nos últimos três anos, o número de companhias do estado cadastradas no Prominp saltou de menos de 30 para mais de 300. No mesmo período, dobrou o número de empresas gaúchas ativas no Cadastro Petrobras (CRCC), conta o coordenador do Comitê de Petróleo, Gás e Energia do estado, Oscar de Azevedo. “Hoje temos 80 empresas registradas, além de 160 que já forneceram para a Petrobras”, conta o dirigente. Azevedo destaca que o objetivo do estado é conquistar na cadeia de óleo e gás exatamente o que a indústria gaúcha representa no PIB brasileiro, entre 7% e 8%. “Já estamos em 3%. Em cinco anos, pretendemos atingir esse patamar”, afirma.


Entre os grupos gaúchos estão empresas como a Lupatech. A companhia, que já firmou vários contratos com a Petrobras, chegou ao ponto de se desfazer de ativos nas áreas de metal e microfusão para se dedicar ainda mais à fabricação de válvulas, equipamentos de completação, amarras e serviços para óleo e gás.

Novatos e tradicionais

Outro contingente de empresas, que passa de 25 grupos em todo o estado, está prospectando ou desenvolvendo projetos para o setor pela primeira vez. Estão aí incluídas companhias como Tramontina, Estaleiro Sorenav, Bertolini, Arbra Soluções em Engenharia, entre outros fabricantes de cabos elétricos, caldeiras, tanques, componentes, fundidos em ferro e aço e fornecedores de tecnologias em controles industriais. “Com o polo de construção naval offshore, em Rio Grande, percebemos que a cadeia de fornecedores do estado, sem abandonar os mercados em que já atuava, poderia perfeitamente ser adaptada aos novos tempos”, observa Azevedo.


Já a Voges, uma das maiores fabricantes de motores elétricos da América Latina, apesar de já fornecer motores para unidades de bombeio da Petrobras, tem novos planos para a indústria petrolífera. A empresa, hoje com 6 mil clientes ativos – o que traduz sua atuação bastante pulverizada –, está certificando, por meio do Cepel, da Eletrobras, uma nova linha de motores à prova de explosão para as áreas petroquímica e naval. No momento, a companhia investe R$ 50 milhões para dobrar sua capacidade de fundição, no intuito de produzir carcaças fundidas para controles à prova de explosão.


Para ter competitividade, a companhia criou, em 2010, uma nova unidade de negócios, a Voges Automação, que busca parcerias internacionais para aumentar seu portfólio. Atualmente a empresa trabalha com duas linhas: inversores de frequência com tecnologia da Emerson Control Techniques e a VSS (Voges Soft Starters), em cooperação tecnológica com a australiana Aucom, especialista em chaves de partida.


São Paulo quer mais

Em São Paulo, duas empresas são bons exemplos desse movimento. Sediada em São José dos Campos, a FT-Sistemas, fornecedora de soluções de comando, controle e inteligência em veículos aéreos não tripulados para a Aeronáutica, busca parcerias a fim de se capacitar para a indústria de petróleo e gás. Embora ainda avalie nichos na cadeia de fornecimento, a empresa deverá prover sistemas de instrumentação e controle, bem como veículos autônomos de superfície e subsuperfície.


Além de universidades e centros de pesquisa brasileiros, a FT-Sistemas buscará em fornecedores internacionais aliados no segmento de automação e controle, que tem alto nível de competitividade. “Estamos avaliando se haverá espaço para empresas com nosso perfil. O mercado nessa área é dominado por grupos estrangeiros, e nossa evolução dependeria, fundamentalmente, da visão estratégica do cliente de nacionalizar a produção”, comenta o presidente da companhia, Nei Brasil.


O executivo destaca que uma das dificuldades de fornecer para o setor de óleo e gás se deve à recorrência de modelos de contrato como o de compensação comercial, em que a indústria local trabalha apenas com subcontratos a partir do acordo direto feito entre o cliente e o fornecedor estrangeiro. “O ideal seria que a companhia local assinasse o contrato diretamente com o cliente para depois chamar o grupo estrangeiro para trabalhar em parceria”, sugere.


A Kei-Tek, de São Bernardo do Campo, especializada no fornecimento de sistemas de automação industrial para o setor automotivo, já forneceu para as plataformas P-51, P-52 e P-53. Sem se dar por satisfeita, a companhia investiu recentemente cerca de R$ 1,5 milhão na construção de um laboratório, equipado com tanque de água salgada, para testar geradores de gases inertes, usados para viabilizar operações de limpeza de embarcações sem que haja risco de explosões. A nova unidade foi uma exigência da Petrobras para que a empresa possa se cadastrar como a primeira fornecedora dessa tecnologia no Brasil. “Hoje, esses geradores são fornecidos por empresas estrangeiras, como Smith e Hamworthy”, observa o diretor Financeiro do grupo, Koitsi Tokunaga.


Há cerca de quatro anos, quando o pré-sal brasileiro começou a ganhar força, a SKF do Brasil, que tem fábrica em Cajamar, deu a partida em um processo de reestruturação para atender o mercado de óleo e gás. Com produção nacional ainda limitada ao setor automobilístico, a empresa está lançando um novo sistema de proteção para turbomáquinas: um painel de monitoramento de vibrações. O IMX-M será fabricado na matriz da companhia, na Suécia, importado e instalado por uma equipe brasileira.


Hoje, as cinco áreas de atuação da empresa – rolamentos, sistemas de lubrificação, vedantes, mecatrônica e serviços – já desenvolvem trabalhos para o mercado de petróleo.


De Minas para Pernambuco


Empresas do setor metalo-mecânico de Minas Gerais sediadas na região do Vale do Aço também estão de olho nas oportunidades. Para nove companhias que já fornecem para construção naval e offshore, e ainda pretendem ampliar seu portfólio para a área, a história começou em 2005, com um trabalho de capacitação feito em parceria com o Sebrae. Quatro anos depois, as empresas deram início a suas primeiras prospecções de negócios.


Hoje, outras 12 companhias passam pelo mesmo processo de preparação. “Elas estão sendo capacitadas e poderão, eventualmente, seguir o mesmo caminho dos grupos pioneiros”, diz Simone Mendes, responsável técnica do Projeto de Metalomecânica do Vale do Aço e do Projeto de Petróleo, Gás e Energia em Minas Gerais.


Tradicional fornecedor mineiro de módulos elétricos e sistemas de automação para a Petrobras – e também produtor independente de petróleo e gás –, a Orteng tem o segmento de O&G como parte essencial de seu planejamento estratégico de longo prazo. Agora a empresa quer ganhar mais peso nessa cadeia produtiva. Em parceria com Construcap e McDermott, a companhia está prestes a dar início à construção da base de operações da CMO (Construção e Montagem Offshore), em Ipojuca, Pernambuco, onde pretende integrar topsides de plataformas offshore.


Com investimento de R$ 250 milhões, o estaleiro terá área de 400 mil m2 e canteiro equipado com cabine de pintura climatizada, sistema de corte e furação de chapas de aço e área para fabricação de tubos. A capacidade de produção total será de 40 mil t/ano. O início de operações da base está previsto para 2013, quando começam a ser fabricados os primeiros módulos.


Para chegar a esse ponto foram mais de 20 anos de trabalho, conta o gerente Regional da Orteng Equipamentos e Sistemas, João Martins da Silva. No começo a empresa fabricava apenas componentes para os sistemas elétricos, como painéis e sistemas elétricos avulsos. Já por volta de 2000, começou a prover a solução completa do sistema elétrico da plataforma, para, em seguida, cerca de um ano depois, chegar à produção dos módulos elétricos. Desde 2007, a Orteng possui a maior fábrica de painéis elétricos do país, onde trabalham mais de 600 funcionários.


Na área de automação ocorreu processo semelhante. “Em vez de fornecer apenas os componentes, partimos para fornecer o sistema de automação completo, que a Petrobras chama de Ecos”, explica Martins. Com isso, a empresa chegou a fornecer sistemas para mais de 20 plataformas – da P-24 à unidade fixa de Mexilhão –, em parceria com a GE e a AC Engenharia. “Chegamos a atingir 60% da produção de óleo da Bacia de Campos, que passa pelos sistemas de controle que nós fornecemos”, afirma o executivo.


Tendência

Alfredo Renault, superintendente da Onip, confirma a tendência de atração de “novatos”, dado o conhecimento geral do tamanho dos investimentos do setor petróleo na economia do país. “Muitas empresas de diversos segmentos da indústria que atendem tradicionalmente outros setores, como automobilístico, siderúrgico e aeronáutico, têm buscado se aproximar do setor de óleo e gás, com estratégias e velocidades diversas”, atesta.


Entretanto, Renault chama a atenção para as eventuais dificuldades que podem surgir. “Fornecedores habituados a outros setores já estão acostumados com um padrão determinado de qualidade e cumprimento de prazos. Assim, o grande desafio para entrar no setor petróleo é superar a falta de conhecimento específico, sobretudo na estruturação de estratégias comerciais”, explica Renault.

Fonte: Gasnet

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