Reino Unido quer ampliar presença no pré-sal brasileiro

As relações comerciais entre o Brasil e o Reino Unido deverão se estreitar mais, sobretudo no segmento de energia, setor alvo de pesados investimentos no país. Em entrevista ao Valor, o embaixador do Brasil no Reino Unido, Roberto Jaguaribe, afirmou que os investimentos da Inglaterra no Brasil vão começar a se intensificar nos segmentos de petróleo e gás, áreas nas quais os ingleses têm expertise.

"O Reino Unido tinha ficado muito para trás em investimentos no Brasil. Agora está mudando, sobretudo em energia, particularmente em petróleo e gás", disse Jaguaribe durante entrevista na embaixada brasileira, na região de Mayfair, uma das mais valorizadas de Londres, a poucas quadras do Hyde Park.

O pré-sal já está aproximando comercialmente os dois países. "O Reino Unido tem pontos focais nesse processo, devido à experiência do Mar do Norte. Não podemos dizer, contudo, que é a mesma coisa sob o ponto de vista tecnológico, mas há uma série de desafios logísticos, que são parecidos", observou o embaixador.

Quando o Reino Unido descobriu petróleo no Mar do Norte, na década de 60, a região tinha capacidade de produzir muito pouco do que era demandado para explorar adequadamente, lembrou Jaguaribe. Com o passar do tempo, foi incrementando significativamente a produção, como a Noruega, e hoje produz mais do que a demanda, apesar de a oferta já não ser abundante.

"Como o petróleo do Mar do Norte está em estabilidade, há uma complementariedade natural com o aumento de demanda com o Brasil. Então, há muita possibilidade de parceria no segmento de petróleo e gás entre os dois países", disse o embaixador.

Segundo o diplomata, muitas empresas inglesas estão se voltando para o Brasil. No dia 10 de maio, será realizado um seminário de petróleo e gás em Aberdeen, na Escócia, onde está instalado importante porto do Mar do Norte, no qual a Petrobras terá importante participação, para discutir o assunto com empresas do setor.

Empresas como a anglo-holandesa Shell, a British Petroleum (BP) e a British Gas (BG) - menor, se comparada às outras duas companhias - estão aprimorando a relação comercial com o Brasil. "Shell e BP, por exemplo, já possuem investimentos importantes na área de biocombustíveis no país", disse.

A BG está montando seu centro de pesquisa global no Brasil e ajuda no programa Ciência sem Fronteiras. "Além disso, há um empenho muito grande de empresas como a Rolls-Royce, que atuam em petróleo e gás", disse Jaguaribe. Recentemente, a Rolls-Royce informou ter planos de investir US$ 200 milhões entre 2012 e 2013 em projetos ligados ao pré-sal. A empresa deverá ampliar a unidade de São Bernardo do Campo (SP) para fazer manutenção de turbinas de conjuntos de geração de energia usados em plataformas de petróleo.

Apesar da forte importância econômica do pré-sal para o Brasil, há iniciativas privadas em outros setores que olham o Brasil com potencial fonte de investimentos, como biotecnologia e inovação, energia tradicional, turbinas para hidrelétricas, entre outros.

Ex-presidente do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) no governo Lula, Jaguaribe foi nomeado embaixador em Londres no início de 2010. Filho do intelectual e ex-ministro Hélio Jaguaribe, o diplomata também esteve encarregado das negociações com a África e a Ásia, prioridades da Presidência da República.

Mesmo afastado há alguns anos da área de inovação, Jaguaribe afirmou que esse segmento, sobretudo o farmacêutico, é de grande interesse bilateral. "Estamos fazendo esforço para identificar mecanismos para ampliar a interface do Brasil com o Reino Unido."

"O Brasil tem capacidade enorme para melhorar sua competência nesse segmento porque tem base tecnológica razoável, base científica ainda melhor, um mercado enorme, com capacidade de expandir significativamente. Além disso, tem políticas públicas, compras governamentais, uma série de instrumentos de grande relevância para ativar com consistência o setor farmacêutico, permitindo, ao meu juízo, que possa ter um elenco inovador importante", afirmou.

O Brasil, na década de 70, buscou fazer uma política industrial permitindo que companhias nacionais copiassem o que havia de mais moderno. "Mas não basta fazer isso. Para fazer uma política adequada, tem que movimentar uma multiplicidade de instrumentos. A mera legislação de propriedade industrial, seja no sentido de acabar com as patentes para permitir as cópias, ou no sentido inverso - de promover muitas patentes, incentivar algumas pesquisas -, nada disso é suficiente. Ela tem que ser acoplada com uma multiplicidade de outros instrumentos dirigidos diretamente."

Jaguaribe disse ser a favor de que o Brasil busque importantes parceiros tecnológicos fora, criação de joint ventures nacionais e parcerias com capital estrangeiro voltadas para fazer uso do grande mercado brasileiro. "Tudo isso em um esquema de competição aberto com outros fornecedores que possam aparecer."

A farmacêutica britânica GlaxoSmithKline (GSK), que já tem presença no Brasil, quer ampliar a participação. Além de gigantes da área, o embaixador observou que pequenas empresas tecnológicas podem ampliar essa relação, pois são muito promissoras, não apenas no mercado farmacêutico, mas também nos setores de nutrientes e vitaminas, por exemplo.

Os ingleses, segundo Jaguaribe, têm passado por uma experiência de transição importante, de um país essencialmente de manufaturas gerais para serviços sofisticados, ampliando muito o uso das indústrias criativas. Eles buscam integrar indústria e pesquisa. "Isso é um dos elementos que, não só no segmento farmacêutico, mas em todas as áreas de produção no Brasil são deficientes, menos na agricultura, onde a pesquisa está muito associada à produção."

Outro ponto seria unificar as demandas de inovação em uma única pasta. "No Reino Unido, há um ministério responsável por ciência e tecnologia, capacitação de pessoal e indústria e comércio. No Brasil, é um pouco disperso [agora a pasta de Ciência e Tecnologia foi integrada à Inovação]. Muitas coisas ainda dependem, por exemplo, do Ministério da Fazenda. Ainda temos muita coisa para fazer."

Jaguaribe citou os sistemas de "catapultas" no Reino Unido, que são centros financiados, integralmente ou em parte, pelo governo, voltados para tecnologias prioritárias para atender demandas específicas da indústria. Esse programa permite que as empresas invistam e demandem tecnologia sem ter um custo fixo relevante associado a isso.

Fonte:Valor Econômico

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