Petrobras controla preços e perde valor

A Ecopetrol é a empresa de petróleo que está no topo da lista dos investidores, uma posição que já foi da maior petrolífera da América Latina, a Petrobras.

Apesar de ser muito menor, a companhia entrou no radar dos analistas do setor, com um desempenho que a diferenciou de seus pares latino-americanos.

A colombiana conseguiu aumentar a produção, transferiu para os resultados a alta dos preços do petróleo e manteve um seu foco na rentabilidade, diz um relatório de banco. Enquanto isso, a Petrobras, que fez a maior capitalização da história, mostra resultados em queda e não atinge as metas de produção, enquanto a recém-nacionalizada YPF torna-se o novo bode expiatório do governo argentino.

O mercado de capitais, onde a Petrobras foi buscar a parte em dinheiro da capitalização histórica (a outra parte ainda está no fundo do mar), não costuma ignorar esses sinais. O Ecopetrol está logo atrás da Petrobras no ranking das maiores petrolíferas do mundo, apesar de faturar muito menos que a estatal brasileira.

Fatura menos, mas rende mais para os acionistas. A relação do lucro sobre o patrimônio, uma maneira de medir como a empresa está valorizando o dinheiro dos investidores, é de quase 39%. A Petrobras está com 9%, o que a coloca nos últimos lugares entre mais de cem empresas globais reunidas pela agência Bloomberg. A Exxon, líder por valor de mercado, tem um retorno patrimonial de 26%.

O valor da Ecopetrol em bolsa é quase igual ao da Petrobras, apesar de ter menos reservas de petróleo e gás, menos caixa e um patrimônio sete vezes menor que o da brasileira. Mesmo assim, o lucro operacional das duas no primeiro trimestre ficou muito próximo: o da Petrobras foi de US$ 6,7 bilhões e o da Ecopetrol, de US$ 4,2 bilhões.

Um administrador de fundos globais classificou esse desempenho como "uma vergonha". Quando questionado sobre de quem é a culpa, a resposta foi imediata: "do acionista controlador, lógico".

Como os acionistas da Petrobras já sabem, a empresa não pode, como muitos de seus concorrentes mundiais, transferir para os resultados a alta dos preços do petróleo. Antes do lucro, ela tem que colocar sua "missão social". Pode ser, como neste momento, controlar a inflação. Pode ser a construção de uma refinaria com a estatal venezuelana PDVSA antecipando todo o investimento para um sócio que quer competir com ela no Norte do país. Também pode ser um cargo para um político da base de apoio do governo.

As perdas da companhia com refino são crescentes, lembram os analistas Marcus Sequeira e Luiz Fonseca, em relatório para clientes do Deutsche Bank em abril, o que para eles já se configuraria numa "questão de governança".

A Petrobras, estima o banco, perdeu US$ 1,3 bilhão em 2011 importando gasolina e diesel, que foram vendidos a preços mais baixos no Brasil. Os dados sobre importação de 2012 sugerem que as perdas vão aumentar ainda mais.

No primeiro trimestre o prejuízo da área de abastecimento, responsável pelas refinarias, foi de R$ 4,59 bilhões.

Com a recente alta do dólar e o início da safra agrícola, a situação deve piorar. "Mais que [um problema] financeiro, as perdas incorridas pela Petrobras nas importações de gasolina e diesel são uma questão de governança, e a decisão do acionista controlador (o governo) de não permitir aumentos de preços (pelo menos para cobrir perdas sobre as importações) é claramente prejudicial para a empresa e seus acionistas minoritários", escreveram os analistas.

Vários analistas ouvidos pelo Valor, todos com o compromisso de sigilo, mostraram desânimo com a decisão do governo de reduzir as taxas de juros ao mesmo tempo que mantém os preços dos combustíveis congelados.

Perguntado sobre quando haverá reajuste dos combustíveis, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse: "A presidente [Dilma Rousseff] examina com cuidado isso porque não quer nenhuma influência na inflação". Já o mercado responde batendo na ação.

A estatal tem hoje uma dívida líquida de R$ 106,2 bilhões, que representa cerca de 32% do patrimônio, maior nível desde 2009. Ao mesmo tempo ela bateu todos os recordes de investimentos sem conseguir aumentar a produção de óleo e gás.

O diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa, diz que a companhia tem uma carteira de investimentos de R$ 160 bilhões e que quando eles ficarem prontos a situação financeira será outra.

Mas no curto prazo a Petrobras teria que cumprir a cartilha habitual de qualquer empresa: aumentar a produção, a geração de caixa e, ao mesmo tempo, reduzir investimentos. Resumindo, precisaria produzir mais, receber pelo que vende e gastar menos. Parece óbvio. Não para a Petrobras.

Um dos analistas ouvidos pelo Valor diz que a utilização da Petrobras pelo governo chegou "ao limite". O processo de aceleração do crescimento, para ele, foi feito nas costas da Petrobras, mas agora ela já não aguenta esse ritmo.

O Deutsche Bank sugere que o controle de preços da gasolina ajudou a inflar a demanda por combustíveis dos últimos anos.

A consultoria Eurasia Group previu um novo aumento dos combustíveis antes de julho, se os preços internacionais do petróleo continuarem altos. "Há claramente um desconforto dentro do governo com a perspectiva de aumento dos preços dos combustíveis precisamente quando se está tentando gerar condições para o Banco Central baixar as taxas de juros tanto quanto possível", diz.

O mais recente reajuste no preço permitido à Petrobras foi em novembro, o que na ocasião foi insuficiente para equalizar o preço do diesel com a média internacional. Já os investimentos da estatal têm aumentado exponencialmente. Entre 2007 e 2011 o gasto anual aumentou 74%. De US$ 6,6 bilhões em 2003, o valor pulou para US$ 23,2 bilhões em 2007, chegando a US$ 40,3 bilhões em 2011.

Se o caixa da Petrobras pode ser reforçado com uma correção no preço, a retomada da produção é um tema mais complexo. A companhia fechou 2011 produzindo uma média de 2,02 milhões de barris por dia e, apesar da média de 2012 estar ligeiramente acima, em março a produção caiu para 1,99 milhão de barris, provocado por paradas para manutenção de plataformas e a suspensão da produção em Frade, operado pela Chevron.

Mesmo antes da queda, os volumes estavam abaixo das projeções da companhia. Em 2008, estimava-se uma produção de 2,42 milhões de barris de petróleo e líquido de gás natural (LGN) em 2012. Isso não vai acontecer. A produção média até fevereiro estava em 2,1 milhões de barris. A meta supõe a produção de 317 mil barris acima da média do ano passado e claramente não será alcançada, já que não existem plataformas para essa produção.

Em um relatório publicado em abril, o Credit Suisse chamou a atenção para os atrasos na construção de plataformas que vão tornar "desafiadora" a missão de cumprir as atuais metas de produção. O banco suíço destaca os atrasos da P-55 (adiada de 2012 para 2013), da P-62 (atrasada e com entrega adiada de 2013 para 2014) e de três outros projetos menores (Baleia Azul, Siri e Marimba), adiados para após 2015, além da FPSO Cidade de São Paulo, anteriormente prevista para entrar em 2012, adicionando 120 mil barris por dia à produção, com entrega prevista agora em 2013.

A expectativa dos analistas Emerson Leite e André Sobreira, do Credit Suisse, à qual fazem coro outros bancos, é que a Petrobras não apresente um aumento expressivo na sua produção até 2014-2015. Mas eles acreditam que no curto prazo um aumento nos preços dos combustíveis possa servir como catalisador para o preço das ações.

Fonte:Valor Econômico/Por Claudia Schüffner e Nelson Niero

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